domingo, junho 05, 2016

Para PF, gravação mostra líder tucano Sérgio Guerra sabotando CPI


Alan Marques - 21.set.12/Local Foto

O ex-senador Sérgio Guerra, ex-presidente do PSDB, morto aos 66 anos

AGUIRRE TALENTO

MÁRCIO FALCÃO

DE BRASÍLIA para Folha de São Paulo.

Um vídeo gravado por câmeras de segurança comprova, segundo a Polícia Federal, uma reunião do então presidente do PSDB e senador Sérgio Guerra (PE) com o então diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e empreiteiros para enterrar a CPI da Petrobras em 2009.

No registro, que também tem áudio, Guerra afirma que "não vamos polemizar", diz que tem "horror a CPI" e que considera "deplorável" um deputado "fazendo papel de polícia". O tucano, que morreu em 2014, era um dos integrantes da comissão.

A Folha teve acesso a relatório da PF com a transcrição das conversas, que ocorreram no escritório de um amigo do lobista Fernando Soares, o Baiano, também presente.

Em sua delação premiada, Costa disse que Guerra pediu R$ 10 milhões para enterrar a CPI e que o pagamento foi feito pela empreiteira Queiroz Galvão.

Na reunião, participam um então executivo da Queiroz Galvão, Ildefonso Colares Filho, e um da Galvão Engenharia, Erton Medeiros. Presos na Operação Lava Jato em novembro de 2014, ambos foram soltos em 2015 por ordem do Supremo Tribunal Federal.

Não há, na transcrição da PF, conversa explícita sobre propina. Ouvidos sobre o vídeo, Costa e Baiano interpretaram um determinado trecho como sendo um acerto velado de pagamento.

Nesse ponto, eles conversavam sobre a defesa da Petrobras contra uma empresa que apresentava problemas. Guerra comenta: "Acho que a defesa não foi completa, a defesa não foi [o advogado] Antônio Fontes?".

Depois, pergunta: "E aí, como é que tá [inaudível] bem?". Colares responde: "Dando suporte aí ao senador, tá tranquilo". Guerra diz: "Conversa aí entre vocês".

Baiano diz que "as tratativas ilícitas eram ditas de forma velada, sem dizer 'propina'". Segundo ele, seria a reunião final para acertar detalhes do pagamento de R$ 10 milhões, que sairia do consórcio que construía a refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, composto por Queiroz Galvão e Galvão Engenharia.

Guerra deixa clara sua disposição em não avançar na CPI, segundo a transcrição.

O tucano afirma inclusive que seu então colega de partido, o senador Álvaro Dias (atualmente PV-PR), queria mandar "algumas coisas pro Ministério Público", mas que ele tentaria "controlar isso".

Guerra também chega a questionar Costa sobre atrasos nas obras e acusações de sobrepreço. O então executivo da Petrobras cita custos, exemplificando com a mão de obra, e diz que não havia irregularidades.

"Aí você vai na obra lá, tem refeitório com ar-condicionado, nutricionista e tal. Custa mais caro, custa."

Guerra o tranquiliza: "Nossa gente vai fazer uma discussão genérica, não vamos polemizar as coisas. [...] Eu tenho horror a CPI, nem a da Dinda [possível referência à investigação contra o então presidente Fernando Collor] eu assinei, é uma coisa deplorável, fazer papel de polícia. Parlamentar fazendo papel de polícia".

OUTRO LADO

O PSDB informou, em nota que "não conhece a gravação e por isso não comentará, mas reitera seu apoio às investigações da Lava Jato".

No fim de 2014, quando veio à tona a declaração de Paulo Roberto Costa sobre Sérgio Guerra, seu filho Francisco Guerra disse que não teria como falar com alguém que não está mais aqui. "Mas eu preservo o legado do meu pai com muita honra."

A Queiroz Galvão informou que "não tem conhecimento do suposto vídeo e de seu conteúdo" e que não comenta investigações em andamento. A Galvão Engenharia nega as acusações e disse que Erton Medeiros já deu esclarecimentos às autoridades.

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