segunda-feira, abril 18, 2016

A vitória dos corruptos e o elogio da tortura


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Octavio Ribeiro, o "Pena Branca", foi o maior repórter policial da imprensa brasileira sem escrever uma linha. Enturmado com os malandros dos morros cariocas, quartel general dos bandidos da "época romântica", exímio conversador, bebia nas fontes mais quentes e, dono de um grande poder narrativo, contava suas histórias ao redator mais próximo, o que resultava nas reportagens que viravam manchete e que lhe deram fama – foi personagem do seriado "Plantão de Polícia", da TV Globo – e até um Prêmio Esso.

Outro segredo que só os mais chegados – aos quais chamava carinhosamente de "Piroca" – conheciam era a sua paixão pela cocaína, pelo "pó", que consumia em quantidades industriais, nariz adentro, a qualquer hora do dia ou da noite.

Quando, no entanto, era instado a responder publicamente sobre consumo e liberação das drogas, tinha posição definida: "Sou contra"!

Aos parceiros de vício, que não entendiam a aparente contradição justificava com a simplicidade mais deslavada do mundo: "Piroca, se liberarem para todos não vai sobrar para mim".

Eu me lembrei dele ao assistir ao desfile de notórios corruptos que anunciaram ontem, no microfone do plenário da Câmara dos Deputados seu voto "contra a corrupção". A lógica embutida no seu súbito acesso de moralidade era a mesma do "Pena Branca": "Se a corrupção aumentar, vai sobrar menos para mim".

Até mesmo os que nunca se corromperam no passado, nem corromper-se-ão no futuro, ao gritarem o "sim" ao impeachment, com a justificativa mais inocente, sem deixar de ser imbecil – "pelo meu filho", "pela minha família", "pelo meu gatinho de estimação" – entregaram o seu voto de bandeja ao réu por corrupção que, por uma dessas peculiaridades do nosso tempo estava presidindo a sessão "histórica" e que foi o maior vitorioso da noite.

Do mesmo modo, todos aqueles que soltaram rojões, estouraram champanhes, bateram panelas, entraram em êxtase na Avenida Paulista e arredores no momento em que a contagem chegou ao ponto de não-retorno fizeram reverência e se curvaram ao Sr. Corrupção que a tudo assistia sem mover um músculo do rosto, como só os psicopatas são capazes.

Mas nada disso sequer chegou aos pés da cena mais abominável da noite negra que se abateu sobre o país, mais uma vez.

Cabelo caído na testa, olhos saltando das órbitas, o deputado Jair Bolsonaro dedicou seu voto "sim" ao torturador-símbolo da ditadura, Carlos Alberto Brilhante Ustra, pisando nas vítimas que ele afogou nos banhos de sangue do DOI-Codi, dando ânsia de vômito em todas as pessoas de bem e de novo quebrando o decoro parlamentar, pela enésima vez, mas que não será a última se ele não for expurgado, finalmente, da Casa da Democracia com a qual não sabe e não quer conviver.

Texto de ALEX SOLNIK

Alex Solnik é jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. É autor de treze livros, dentre os quais "Porque não deu certo", "O Cofre do Adhemar", "A guerra do apagão", "O domador de sonhos" e "Dragonfly" (lançamento setembro 2016)

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